A História de Clara

Vamos chamá-la de Clara. Professora, divorciada, mora em Minas, mãe de dois filhos adolescentes.

Nosso primeiro contato virtual foi através de uma amiga em comum (com um senso de humor fantástico), cuja postagem ela respondeu.

Vários anos depois, presenciei muitos momentos da vida dela: relacionamentos que não deram certo, dores de cotovelo escancaradas, desabafos explícitos, problemas de saúde, problemas com os filhos, problemas no trabalho, problemas com os colegas de trabalho (eles ‘nunca’ estavam disponíveis quando ela precisava de um ombro amigo), dentre tantos outros problemas, problemas, problemas…

“Nossa, Angélica, quanta insensibilidade! Coitada da moça, só precisa de alguém com quem conversar”!

Sim, todos nós precisamos. TODOS. Todos nós temos aqueles momentos em que precisamos encontrar ‘aquela’ pessoa que nos entenda – e nos ature – e vomitar absolutamente tudo o que está errado nessa nossa vida de merda.  O cabelo está horrível; aquela vadia que se diz sua amiga está dando em cima do ‘seu homem’; seu trabalho é um atraso de vida; seu filho é um preguiçoso; sua mãe não te deixa em paz; seu cunhado vive pedindo dinheiro emprestado (e nunca paga de volta); você não tem amigos leais; sua mesa está entupida de contas para pagar; você está gorda; você se sente feia, chata, inútil e, sinceramente, nem sabe mais o que está fazendo nessa droga de planeta.

Quem nunca?

nuvem-negraE então você posta um muro de lamentações por dia na sua linha do tempo. E os “amigos virtuais” aparecem para dar aquela força, uma curtida, uma palavra de incentivo, um ‘emoticon’ com carinha feliz, qualquer coisa. E então, NO MESMO DIA, você posta sentimentos que oscilam desde Amy Winehouse versão fundo do poço até Taylor Swift distribuindo tabletes de doçura capazes de provocar diabetes aos mais desavisados. Isso, no mínimo, 12 x por dia. Não dá nem para acompanhar o humor porque…OPA! Já mudou de novo!

E então (re)começam as reclamações sobre ‘azamigas’ que não têm a menor consideração, que só pensam nelas mesmas, que “quando a gente mais precisa, não sobra uma“. Hunf, aquelas megeras!

E as manifestações de apoio moral virtual vão rareando, rareando, rareando… até que não reste nada além de uma curtida ou duas e algumas poucas palavras de pseudo-solidariedade.

E então vem a pergunta de um milhão de reais: POR QUE AS PESSOAS NÃO LIGAM PARA O MEU SOFRIMENTO?

E a resposta que eu quero gritar, a que está entalada na minha garganta, é:

PORQUE O SEU SOFRIMENTO É SEU!

Isso não tem absolutamente nada a ver com egoísmo, falta de consideração, amizades superficiais ou qualquer outro nome feio que as pessoas encontrem para usar como desculpa pelo fato de não se responsabilizarem pela própria situação.

Elas não suportam a própria dor, mas esperam que os outros a suportem por elas; elas não olham para a própria ferida, mas esperam que os outros a limpem; elas não se mexem em busca de uma solução, mas esperam que os outros a tirem dela.

“Angélica, se ela te faz tão mal, por que você simplesmente não a exclui”?

Não, ela não me faz mal. Ela faz mal para ela, APENAS. Eu sou uma observadora de pessoas. Eu observo, eu aprendo, eu questiono. Observando as pessoas eu observo a mim mesma.

O quanto de ‘Clara’ tem na Angélica?  O que eu vejo – e o que me repele – é um reflexo de quem eu TAMBÉM sou e não quero admitir? Por que eu me sinto do jeito que eu me sinto quando vejo/ouço/leio/ certas coisas? Quando interajo com certas pessoas? Quando, de um jeito ou de outro, suas reações, tanto positivas quanto negativas, me afetam?

Ela continua lá, em seu espaço virtual, reivindicando sua vida de volta, como se alguém a tivesse tirado dela. E alguém realmente tirou. Mas isso ela só vai descobrir quando cobrar essa dívida pelo lado de dentro do espelho.  E eu também.

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