Uma Dose de Freud e uma Porção de Fritas, Por Favor.

Sigmund Freud foi um dos pais da psicologia moderna e o inventor da terapia do “sente no sofá e me fale sobre os seus problemas”. Freud acertou bastante, mas ninguém – nem mesmo ele – acerta sempre. Uma de suas ideias era a de que os pais desempenham um papel determinante na formação das personalidades e saúde emocional de seus filhos. Essa ideia persiste até hoje. Em pleno século 21, é perfeitamente normal e aceitável discutir as deficiências de seus pais como uma espécie de explicação para as suas próprias. Fóruns de autodesenvolvimento lotam salas com histórias recheadas de “pobre de mim” sobre como os pais não foram presentes o suficiente, não mostraram afeto o suficiente ou foram, de uma forma ou de outra, responsáveis pela crise da pessoa.

Hoje, esta ideia de responsabilidade dos pais é tão onipresente que se tornou um clichê, uma paródia. “Oh, mamãe não te abraçou o suficiente? Vamos beber Smirnoff e dirigir BMW’s, isso vai passar.” Existe uma linha muito tênue entre autoaperfeiçoamento e autoindulgência. Como já dizia Renato Russo: “você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo; são crianças como você… o que você vai ser quando você crescer?”  

FreudMeu pai era policial rodoviário, introvertido, sonhador e tinha problemas de raiva. Ele morreu de ataque cardíaco aos 42 anos, quando eu tinha 5. Minha mãe foi professora a vida toda e é uma pessoa extrovertida, brincalhona e péssima em controle de finanças. Quando algo dava errado, a culpa inevitavelmente recaia sobre um deles (ou sobre os dois): “briguei mesmo, sou estourada com o meu pai,” ou então “como eu posso guardar algum dinheiro se eu sou consumista compulsiva como a minha mãe?”

Na verdade, essa é uma ótima desculpa para nos livrar das encrencas em que nós mesmos nos colocamos. Funciona bem até nos darmos conta de que essa influência é, na verdade, muito pequena. Muito menor do que Freud pensava. E muito menor do que a maioria de nós tende a pensar. Traumas de infância são traumas de infância, não importa se eles foram causados pelos pais, por algum professor, por um valentão da escola, ou por um ataque de vespas africanas na TPM. Na verdade, os pais de merda em um ambiente bom são melhores do que pais bons em um ambiente de merda.

Afinal de contas, alguém tem culpa nessa história?

À medida que crescemos algo terrível acontece. Percebemos que os nossos pais são pessoas. Eles erram. Eles têm problemas. Às vezes, problemas graves. E o que é pior é que, quando chegamos aos nossos vinte ou trinta e tantos, começamos a perceber que nós também temos problemas, muitos dos quais são IDÊNTICOS aos problemas dos nossos pais! Maldição! Por isso, é quase impossível não encontrar algum tipo de correlação entre o comportamento deles e o nosso próprio enquanto adultos. Eles são semelhantes demais para serem ignorados! Mas é aqui que a coisa muda: a verdade é que os nossos problemas são, simplesmente, nossos problemas, independentemente do que os nossos pais fizeram ou deixaram de fazer. Nós somos responsáveis por nós mesmos, e ao mesmo tempo em que não podemos controlar a nossa genética ou a nossa história de vida, sempre podemos controlar o que fazemos com base nelas. Todos, sem exceção, têm experiências de merda. Algumas são piores do que as outras, mas elas estão todas lá. E depende de nossa capacidade de discernimento, enquanto adultos, reinterpretá-las, alterá-las e construir algo positivo com elas. Nós somos responsáveis por quem nós somos hoje. Não é tudo culpa deles. Honestamente, não importa de quem é a culpa. Porque a responsabilidade é sempre sua. Então, se você está em um grande buraco, comece a subir sem olhar para trás.

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